Três da tarde. Horário de Brasília. Bem longe do Planalto Central, o sol entrava tímido atravessando a janela da sala. Ele estava de pé, com um imenso ponto de interrogação estampado na cara. Ela ria toda vez que ele a olhava daquele jeito. Ele gostava do riso dela. ‘Sorriso de Golfinho’ – tudo culpa das bochechas que possuía. Talvez justamente por isso ambos estavam agindo assim. Ele a fazia rir por apreciar seu riso. Ela sorria para ele por saber que ele gostava.

          Ele era o seu amor platônico, já dissera isso várias vezes e quando os dois se encontravam era como se o mundo congelasse alguns segundos. E foram entre estes segundos em que o mundo parou que ele  pode perceber algo além do que ela mostrava. Algo escondido no fundo do seu olhar. Algo que ela jamais mostrara a ninguém. 

Não gostava quando ele a olhava daquele jeito… Sentir-se despida – não o corpo, mas a alma – era algo que a incomodava. Mas ele afinal era bom nisso. Sabia e a compreendia. ‘O Artesão dos momentos’ era peculiarmente hábil em seu modo de traduzi-la.          Percebeu rápido o incômodo e desviou o olhar. Normalmente descontraído, às vezes era pego de surpresa por uma timidez sem explicação. O coração pulsava muito rápido e muito alto para deixá-lo pensar e compreender o que acabara de acontecer. Disse qualquer bobagem e se virou para ir buscar qualquer coisa. A idéia, a princípio boa, foi mal executada. Ela reconheceria a desculpa boba mesmo que não o conhecesse tão bem.        

Ela adorava quando ele ficava tímido. Às vezes gaguejava e rapidamente procurava algo para fazer, para passar a vergonha e acalmar as palpitações. ‘Mas um rubor não dá pra disfarçar… Tudo é muito rápido e reflexo’… Era impossível segurar o seu meio-sorriso. Sentou no sofá, tirando as sandálias altas que machucavam seus pés.         

Respirou fundo. Tomou um copo d’água. Perguntou se ela gostaria também. Ela não respondeu. Ele resolveu levar. Agora mais calmo, se dirigia de volta à sala, onde ela estava acompanhada apenas de inúmeras possibilidades. O ruído das sandálias caindo sobre o assoalho, subiu como um arrepio pelo seu corpo. Encostou-se no batente da porta e ficou em silêncio, observando-a.

Deixou escapar uma longa gargalhada: – ‘Tá olhando o quê, querido?!’  Disse com uma voz molhada e orvalhada, como uma manhã na serra. Sorriu com o olhar: – “Você.”         

 Ela esperava qualquer coisa, menos isso. Sem rebuscar. Sem formular a frase. Duas sílabas. Uma palavra: Nenhuma reação. Ergueu o copo em sua mão, a oferecer-lhe. ‘As palavras eram claras como a água.’ – pensou.           

Ela sorriu timidamente. ‘E agora, ele me deixa desnuda… Já estou vermelha, tô sentindo… O que fazer? Será que devo contar o que sinto? Mas ele deve saber… Eu acho. Será que o chamo pra sentar ao meu lado? Mas e o nosso projeto? A amizade de tanto tempo? O que fazer?’          

 Ela sorriu e ele entendeu como um sim. Aproximou-se e entregou. Ela não bebeu muito, devolvendo em seguida. A aproximação não poderia ser desfeita. O copo ficou sobre a mesa de centro e ele, com a mão sobre os seus cabelos.       

   Juntos, costumavam ser verborrágicos. Falavam sobre tudo. Sobre o nada. Sobre a vida e a morte. Discordavam muito e se amavam por isso. Concordavam muito e se amavam mais ainda. Mas agora, eram os dois e o silêncio. Mas ao contrário do que poderiam imaginar, estavam visivelmente confortáveis.         

 Pediu para deitar-se em seu colo. O dia havia sido longo e cansativo e o que mais desejava era isso. Ela não sabia mentir para ele. Sentia uma paz inexplicável quando o tempo parava e os dois se encontravam naquele lugar – nenhum            

      O mundo voltou a se mover. Devagar, mas já dava seus sinais. Com ela em seu colo, sentia-se completo.

Queria protegê-la, confortá-la. Queria o que fosse desde que fosse com ela. Ela conversou longamente sobre tudo que havia acontecido de uma forma rápida, às vezes engolindo palavras. Gesticulava muito e atuava em cada detalhe, para dar o grau de veracidade necessário. Ele ria das suas criancices e a escutava.         

Ela sabia como falar com ele. Rindo das partes ruins, enfatizando as partes boas. Era como viam a vida. Menos contido, ele arrumava qualquer desculpa para tocá-la e olhar em seus olhos, sempre fugitivos. Sua mão posava sobre a dela que, em troca era apertada e ganhava beijos curtos.       

   ‘Não me olha assim, não me toca desse jeito… Você não sabe o quanto tenho medo… ’ Pensava… Enquanto desviava seu olhar dos olhos sorridentes do seu querido.         

 Ele sabia que estava ultrapassando uma barreira com seus carinhos. Mas não via nenhum sinal claro de que devesse parar. Ao contrário, a cada vez que as peles se tocavam, era como se fossem feitos de cobre e sentiam a energia correr livre por sobre a pele. E a eletricidade, como todos sabem, pode ser facilmente convertida em calor.   

Anúncios